
Erin Compton é americana e vive em Washington, D.C.
A ideia, senso comum, de que todos os americanos pensam igual, que eles só olham para si mesmos, que formam uma sociedade que vive de “explorar” países menos desenvolvidos, entre tantas outras coisas, vem se mostrando para mim, desde que fui morar lá, bem equivocada.
Ao contrário do que pensamos, apesar de patriotas, nem todos os americanos pensam igual, muito menos estão sempre de acordo com as ações do seu governo. Apesar de ter chegado ao Estados Unidos, confesso aqui, cheia de preconceitos sobre o povo do país, vejo, cada dia mais, que estava errada. A maioria dos americanos, de fato, tem uma forma de pensar bem diferente da nossa. Mas, como qualquer sociedade, a americana formada de forma heterogênea.
Mais uma coisa para comprovar esse meu pensamento aconteceu durante a apuração do material especial sobre o “11 de Setembro”. Enviei exatamente a mesma entrevista para dois americanos e recebi respostas bem diferentes dos dois. Quem está certo ou errado? Não sei, não tenho a intenção de julgar, apenas vou expor pensamentos distintos sobre a maior tragédia que os americanos já viveram.
No mais, só posso agradecer a Chris Hogan, 25 anos, da cidade de Baltimore, no estado de Maryland, e a Erin Compton, 31, moradora de Washington, D.C., que gentilmente cederam essa entrevista ao Live from USA. Eles nos mostram, de maneira diversificada, como alguns americanos percebem os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Chris Hogan é de Baltimore, Maryland
Você lembra o que estava fazendo no dia e na hora dos atentados?
Erin - Eu estava no último ano da faculdade, tinha saído da minha aula das 8 da manhã e ia para academia. Todo mundo na academia estava assistindo a reportagem falando do primeiro choque como acidente. Cheguei justamente na hora para ver o segundo avião atingir a segunda torre. Foi então que começamos a pensar que não foi mero acidente.
Chris – Eu estava na escola na época. Eu estava em uma aula de política, quando ouvi pela primeira vez sobre o que aconteceu. Nós não tínhamos TV a cabo, de modo que ouvimos o rádio para atualizações. O professor correu para casa entre as aulas, gravou as notícias e trouxe para nós assistirmos. Depois disso, fui à aula de matemática e o professor não nos deixava saber o que estava acontecendo. Mas nós sabíamos que era muito grave, porque os estudantes a cada 5 ou 10 minutos eram levados para fora da escola. As aulas nesse dia terminaram mais cedo e fomos todos para casa, para assistir ao noticiário e ter uma melhor idéia do que aconteceu.
Qual a sensação de ver as imagens das duas torres indo ao chão?
Erin - Incrédula, angustiada, imaginando o terror, desespero e a sensação de desamparo de todas as pessoas perto das torres. Rapidamente pensei em todas as pessoas que eu conhecia que poderiam estar lá também. Tentei ligar para minha família mas as linhas estavam todas congestionadas e não dava pra se comunicar com ninguém.
Chris - No começo, eu estava muito confuso e, então, naturalmente, muito triste. Neste ponto da minha vida, eu não sabia nada sobre o mundo ou o que estava acontecendo em diferentes partes do mundo. Foi tudo muito confuso.
Como você superou o trauma? Como vocês (americanos) superaram o trauma? Ou alguns nunca superaram?
Erin – A situação foi muito triste, confusa e assustadora. Eu, por sorte, não fui afetada diretamente, mas conheço pessoas que foram. Por exemplo, tinha uma colega minha na faculdade cuja mãe era aeromoça do avião que bateu no Pentágono. Não posso imaginar como deve ter sido para ela. Lembro que ela terminou os estudos com a ajuda de um fundo que dá bolsas para filhos das vítimas dos atentados. Ela disse que a comunidade acadêmica lhe ofereceu um sistema de apoio que a ajudou a superar o trauma.
Chris - Eu ainda penso sobre isso de vez em quando. Só o tempo e muita reflexão sobre o que aconteceu para se sentir melhor com tudo isso. Sei que algumas pessoas foram atingidas diretamente e imagino que tenha sido muito difícil. Uma menina em uma escola vizinha perdeu seu pai na tragédia. Imagino que ela nunca vai esquecer completamente esse trauma.
Por que acha que aquilo aconteceu?
Erin - Eu acho que tem muito a ver com a imagem transmitida através da presença militar e política que o governo dos Estados Unidos tem tido durante muitas décadas no resto do mundo. Sempre tem se empenhado em executar iniciativas de controle político de outros países, apresentadas (disfarçadas ou não) como o grande lutador da democracia, seja pra proteger segurança nacional ou assegurar acesso a recursos naturais, entre outros objetivos. Essas iniciativas, muitas vezes, são contra a vontade dos países. Essas atitudes e ocupações militares têm criado um clima de ressentimento e ódio em algumas partes do mundo.
Chris – Acredito que os ataques aconteceram porque um grupo particularmente de extrema não gosta de nossa cultura ou do governo. Eu sinto que há pessoas assim em todo o mundo, que estão dispostas a matar inocentes só porque eles acreditam em algo diferente.
O que mudou na sua vida e das pessoas que te rodeiam depois daquele dia?
Erin - Na minha vida não mudou nada. Consigo ver o aumento na segurança nos aeroportos e quando ando de metrô em Washington, D.C., ou viajo de avião, às vezes, penso na vulnerabilidade do País. Mas, eu, como as pessoas ao meu redor, reconhecemos que não há muito o que fazer para se prevenir de atos de terrorismo, além de ficar mais atento.
Chris – A minha percepção do mundo mudou nesse dia. Eu percebi que há muitas pessoas em todos os cantos do mundo que não vão gostar de você só por conta do lugar onde você nasceu ou pelo o que você acredita.
Como você viu a morte de Bin Laden quase dez anos depois dos atentados? Acha que a Al Qaeda ainda planeja novos ataques?
Erin - Acho que foi anticlimático, tanto para as pessoas que talvez tenham desejado a morte dele quanto para as pessoas que só procuravam justiça. Não foi necessário assiná-lo (se era o objetivo ou não, não sei) e acho que teria valido muito mais tê-lo vivo, para depois levá-lo à justiça internacional.
Chris - Fico feliz de que Bin Laden está morto, embora eu não ache que isso mude alguma coisa. Acho que a Al Qaeda vai continuar a procurar formas de atacar a todos que não compartilham de seus ideais, seja em solo americano ou em qualquer outro país do mundo. Inclusive, os países de origem dos fundadores da Al Qaeda. Eles provaram que são capazes de matar todos que não estejam alinhados com suas idéias.
Você ainda tem medo de novos ataques?
Erin - Não sei se diria que é medo mesmo, mas eu tenho certeza que haverá atentados no futuro, porque continuamos sendo vulneráveis a pessoas que acham que com atrocidade e força bruta conseguirão mudar o modo de operação do governo do País. Essas mudanças sempre tem que vir de baixo, não de cima e não de forças externas.
Chris – Eu não diria exatamente que estou com medo de ataques. Eu acho que o risco de ser atacado por um terrorista invisível é agora um fato da vida que você tem que lidar. E não podemos viver todos os dias com medo. Você nunca sabe quando algo vai acontecer.
O país parece mais seguro do que antes ou tem a mesma vulnerabilidade?
Erin - Acho que viajar de avião melhorou um pouco, sobretudo por conta do aumento na conscientização do público. Contudo, pelo menos aqui em Washington, eu ainda vejo muitos alvos desamparados para ações terroristas.
Chris – Eu não sei dizer se o país parece mais seguro. Em certos aspectos da minha vida, a cada dia, eu sinto mais segurança. Por exemplo, eu sinto que a viagem aérea está mais segura, edifícios do governo são mais seguros. E as pessoas têm recebido formação suficiente para possíveis situações de risco, como evacuar edifícios ou o que fazer quando vêem um pacote suspeito.
Como você vê a ocupação no Afeganistão, Iraque, Líbia? Acha que foi muito gasto de dinheiro? Surtiram resultados?
Erin – Foi um desperdício total de dinheiro ficar nos três países. No Iraque não teve resultado nenhum que avançasse os supostos objetivos do País, e a morte do Saddam não ajudou nada a causa dos EUA, nem dos outros países que se movimentaram contra ele. No Afeganistão, também não teve resultado claro, tangível, nem positivo politicamente.
Chris – Se depois da intervenção americana, os moradores desses países vivem mais felizes, têm a vida mais livre, eu acredito que é um dinheiro bem gasto. Sinto que todos devem ser livres, para praticar sua própria religião e viver como eles querem. Este foi o caso no Afeganistão ou Iraque. Pessoas que vivem sob senhores da guerra no Afeganistão eram muito reprimidas, principalmente as mulheres. O genocídio de minorias étnicas no Iraque também foram interrompidos. Estou contente pelos Estados Unidos ajudarem as pessoas que não podem se ajudar. Eu compreendo o sentimento de que os Estados Unidos deveriam deixar outros países agirem por si só, mas também sinto que se você tem o poder de ajudar alguém que não pode se ajudar você não deve fechar os olhos.