O texto abaixo quem me mandou foi o Augusto César Costa, cabra pedra 90, ex-presidente do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. É da lavra da escritora cearense Ana Miranda, uma das contempladas este ano com o Troféu Sereia de Ouro, concedido pelo Sistema Verdes Mares a personalidades que levam o nome do nosso Estado a outros plagas com qualidade. Foi publicado na revista Caros Amigos deste mês:
“AUSÊNCIA DO LIVRO
Maria é uma estudante brasileira. Gosta de ler, mas não tem o hábito da leitura. Ouve os pais, os professores dizerem que ela precisa ler, mas não sabe muito bem o motivo. As escolas fazem um esforço para que ela leia, os governantes adquirem livros aos milhões e sustentam ou criam bibliotecas, mas Maria não lê. Ela já leu alguns livros na escola, orientada pelos professores, foi à biblioteca da escola e leu, teve dificuldades para ler um ou outro livro, mas dos livros “fáceis” ela gostou. Maria até gosta de ler, porém não lê. Acha que é porque não tem tempo, ou porque não tem dinheiro, porque não sabe se concentrar, porque não entende… Simplesmente não adquiriu o hábito de ler. Não lê direito nem as placas de rua, as legendas de filmes, erra muito e sua mente fica confusa. Maria tem agora dezessete anos e vai fazer o vestibular, entende as matérias, mas erra nas respostas porque não sabe ler o enunciado. Não sabe ler o que encontra no computador, apenas copia e cola. Não sabe ler nem mesmo aquilo que escreveu. Não sabe escrever uma redação.
Maria cresceu distante dos livros, em sua casa jamais teve uma biblioteca na sala, nem uma pequena estante de livros, nem uma prateleira de livros no quarto, nunca viu seus pais lendo, sua mãe jamais a levou a uma livraria ou a uma biblioteca, nas salas de aula Maria jamais teve uma estante de livros, os passeios escolares jamais foram a uma livraria ou biblioteca ou editora ou impressora de livros, nos fins de semana a escola lhe oferece esporte, jamais Maria teve um horário de leitura no seu cotidiano, nem na escola nem em casa, ouviu a professora lendo livros para crianças, encantou-se com contadores de histórias, mas jamais lhe ensinaram o hábito de ler e escrever diairiamente, embora lhe tenham ensinado o hábito de tomar banho, escovar os dentes, amarrar os sapatos, fazer o dever de casa cotidianamente.
Maria percebe o esforço dos professores para que leia livros, mas o livro é retirado de sua vida, sua cartilha não tem formato de livro, na escola os livros têm formato de apostila, mais parecida com revista, na igreja ela recebe um folheto, Maria nunca vê ninguém lendo, o livro está fora de seu percurso diário, ela não sabe nada a respeito do livro, não sabe distinguir um bom livro de um livro ruim, os professores dão um tema que Maria vai pesquisar na internet, e não exigem a leitura de um livro, um capítulo que seja, os professores dizem que é preciso ler, mas Maria recebe apostilas, jornais, onde se encontram os caminhos para evitar a leitura de um livro, que reproduzem trechos ou resumos de livros, e perguntas e respostas, o livro jamais fez parte da vida de Maria, ela não tem nenhum amor pelo livro, nem mesmo apreço ou interesse, o livro não lhe diz nada, apenas ela sabe, de forma meio vaga, que precisa ler…”