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Categoria: Memória


08:59 · 22.01.2015 / atualizado às 07:03 · 21.01.2015 por

Completa-se nesta quinta-feira um mês da reinauguração do Cine-Teatro São Luiz, em Fortaleza.

O velho cinema no Centro da Cidade virou um equipamento técnica e tecnologicamente capacitado a receber espetáculos de médio e grande portes de diferentes manifestações. Enfim, o Governo do Estado cumpriu um papel importante no resgate de um patrimônio histórico e cultural.

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No entanto, deve-se notar: se o ambiente interno do Cine-Teatro está nos trinques, o externo – a Praça do Ferreira – está uma depauperação só.

E cuidar dela, assim como das demais praças, é obrigação não cumprida pela Prefeitura.

Essa pauta já foi até levada à Câmara Municipal, que avalia por estes dias a pertinência de se mudar para a região central da cidade.

Mas o debate resiste a 2015?

13:05 · 08.01.2015 / atualizado às 13:05 · 08.01.2015 por

Poesia
Por ser poesia
Não me incomoda
Quando me chama
No meio da noite

Lá pelos anos 1980, quando eu achava que poderia cometer poemas impunemente, escrevi esses versinhos meio bobos acima. Arte pela arte, posso dizer hoje – algo sem pretensão revolucionária, pois.

Devo confessar que precisei amputar alguns pudores meus para mostrar ao senhor e à senhora as mal-traçadas que ora mostro. Foi mal.

Mas o que quero dizer mesmo é que nem todos foram ou são poetas impunes. Nem todos, como eu, escaparam sem flagrante delito. Mário Gomes, por bênção ou maldição, foi um desses.

Mário, perambulante, deambulante, poesia curvada como as curvas que fazia nas ruas de Fortaleza, morreu no último dia de 2014.

E, sobre ele, meu camarada-irmão Ricardo Kelmer, um dos melhores textos que já li no meu meio século e um tantinho de existência, escreveu como quem escreve um tributo. Pedi licença a ele para reproduzir o texto, o qual se encontra originalmente no Blog do Kelmer:

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MÁRIO GOMES, O POETA VIRALATA

Era um burburinho que rodava dentro da cabeça dele, sem parar. Uma noite rodou, rodou e pariu um poema. E ele riu da própria marmota. Descobriu-se poeta.

Rapaz, trabalhar com redemoinho no juízo não dá. Veio-lhe aí a revelação, aquilo que todo cão viralata sabe: se é pelas ruas que a vida livre escorre em poesia, bebamos de sua sagrada putaria. Então batizou-se boêmio e vagabundo.

Rebelando-se contra tudo que não rima com liberdade, um dia ele fugiu do manicômio. Lá no alto, a lua se apaixonou, a andarilha do céu, e jurou protegê-lo em suas perambulanças e traquinagens. Assim, sempre sem dinheiro mas abençoado, fez-se aventureiro: em São Paulo foi preso, mas escapuliu, por se fingir cineasta para as mulheres, em Minas se atrasou e não embarcou no ônibus que viraria na estrada, e lá nos cafundós da Bahia escapou de morrer no veneno de um vatapá na encruzilhada.

Ah, ele sumia por meses, mas Fortaleza sempre o recebia de volta. Todo lascado de surras e prisões, mas uma ruma de história mirabolante para contar. À tarde, na Praça do Ferreira, o vento malandro a brincar de subir a saia das moças, era com suas errâncias quixotescas e os versos obscenos que o povo se encantava, ele lá, de paletó sem gravata, camarada e bonachão. Fiel se manteve ao ofício de sua nobre vagabundagem, vivendo sem amanhãs, e sempre o acudia um troco para a janta e o cigarro. De tanto encarnar o surreal da vida, ainda vivo virou lenda. Assim foi que um dia, ele contando orgulhoso da aposentadoria por invalidez mental, que os amigos entenderam: cidade bendita a que provê seus poetas mais puros.

Nos seus livros publicados, a arte intuitiva brincava sem parâmetros, feito criança travessa que, sem atinar, aponta o absurdo da existência. Era por isso que ele podia colher uvas no pé de cana até chegar o homem das laranjas. Por isso ele, só ele, foi comido vivo em banquete por Odete, Judite e Maria Helena. Por isso que em seu braço a formiga bebia água e de sua merda uma tarde voaram borboletas. Porque só o poeta que reflete a lucidez primitiva do desconexo sabe que na vitrine a manequim tem fome.

Tua amada, cadê?, são as estrelas a lhe indagar na solidão das madrugadas. Ela não veio, responde magoado, e vira a cachaça. Agora, debilitado e maltrapilho, defende-se como pode de velhas assombrações, os eletrochoques, aquela virgem ingrata que lhe negou um nheconheco, a surra da multidão em Salvador por lhe confundirem com um bandido… Agora, veja só, lhe proíbem de recitar seus poemas onde antes era aplaudido, como se atrevem? E esses moleques idiotas, que lhe acordam com pedradas, acham que é mendigo, não sabem que saiu no jornal, que o mulherio gama só de olhar? A mãe, tadinha, morrera, ela que cuidava de lhe dar os remédios que sossegavam os burburinhos, e que agora já não parem poemas. Dizem que virou espectro vagante, que é melhor ir para a casa de repouso, que morreu mês passado, ah, não entendem porra nenhuma. Aquele bar ali, outro dia lhe negaram um resto de pão que sobrou na mesa, vão tomar no cu. Felizmente as ruas sabem quem ele é. E pode lavar a calça no banheiro do teatro. E embaixo da passarela ainda lhe deixam dormir. E descansar a carcaça. E sonhar seu sonho louco de liberdade radical…

Ele se foi numa tarde sem vento, com os fogos do ano novo a ignorar sua partida. Como não tinha documento, não podiam liberar o corpo para o velório na biblioteca. Mas ele é o poeta Mário Gomes, os amigos tiveram de explicar. Era a sua credencial, de mais não carecia para adentrar a posteridade. Lá no alto, a lua grávida dele não quis falar. Por detrás do Universo, Jesus tomou uma com Satanás. E mais além, na Praça do Ferreira, um viralata rodou, rodou e mijou um minuto de silêncio.