Roberto Moreira

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Tenho piedade dos médicos

Publicado em 16/11/2011 - 15:34 por | 2 Comentários

Categorias: Notas

Cada dia que passa tenho mais piedade dos médicos cearenses mantenedores de consultórios particulares. Antes de tudo, porque ganham mal. Têm de arranjar vários biscates para sustentar-se, manter a família e colocar os filhos num bom colégio que os conduza, com seus métodos, aos caminhos do pai; também ser médico. Ou então, engenheiro, arquiteto, cientista ou gerente de banco. Com os recursos que recebem dos planos de saúde ou consultas particulares – nunca inferior a R$ 400,00 – eles não cobrem as necessidades básicas de um pai de família que, além do exercício profissional diário, lutando pela sobrevivência de seu semelhante, ainda tem de comprar livros e participar de congressos atualizadores das evoluções científicas. Tenho piedade, sinceramente.

Sinto mais pena ainda quando sei que esses especialistas são forçados a atrasar a chegada em seus consultórios – por largarem tarde de um dos bicos – o que muito os contraria e por deixarem os pacientes esperando, às vezes, até duas horas para serem atendidos. E, o que mais me magoa e faz sofrer é saber que os profissionais de saúde ficam contrariados, por terem consciência de que seus consultórios estão se transformando, dia a dia, em oficinas de angustiados, tanto chá de cadeira que tomam.

Para vocês terem uma ideia do sofrimento desses médicos, faz alguns dias, um deles, bem cedinho, na Praça dos Estressados, após fazer cooper, no calçadão da Avenida Beira-Mar, me disse fazer tudo para chegar no horário pontual, para atender pacientes com horas marcadas. Mas, infelizmente, o engarrafamento no trânsito não deixa e ele, inconscientemente, se torna um neurotizado. Irritado. Até os resignados que pagam a dinheiro vivo, às vezes, ficam aguardando.

“Chego ao consultório com vontade de não atender a ninguém. Como preciso do ´cacau´, começo o trabalho, depois de tomar duas garrafas de água mineral gelada sem gás. No entanto, acredito que as consultas não saem como gostaria. Ainda escuto a secretária dizer que muita gente remarcou a consulta ou foi embora vermelho de raiva”, detalha. Mas abatido com certeza. Conheço esse profissional de muito tempo. É um consciente das suas limitações momentâneas e de suas responsabilidades sociais.

Além dos doentes, quem sofre crises de vexames, não tanto quanto os médicos, são as conformadas atendentes que aguentam o sopapo psicológico do cidadão ou da cidadã, quando resolve reclamar severamente. Dessas atendentes, há algumas despreparadas para o convívio social – falta de relações humanas, na família e no trabalho – dada a incapacidade de acalmar um paciente irritado, concedendo-lhes conselhos, argumentos ainda que paliativos, capazes de conter, até certo ponto, a justificável fúria, convencendo os apopléticos de que serão atendidos e bem atendidos. Mas, a maioria é fina no trato e balsâmicas na conversa.

Há médicos que chegam cedo em seus consultórios e atendem no horário os seus pacientes, mas demoram também. No entanto, essa demora tem uma justificativa honesta. Eles descascam de exames os seus doentes, não deixando de cravá-los com amplo questionário, para enriquecer seu prontuário e facilitar, no caso de necessidade, a futura consulta. Esses não são daqueles – infelizmente ainda existem – que mandam o paciente abrir a boca, dão os toques em partes sensíveis do corpo, fazem algumas perguntas e liberam para o caixa de recebimento dos honorários.

Relatou-me um neurologista amigo que, desgraçadamente, os médicos são obrigados a sobreviver nessa roda vida louca. E, num depoimento de elevada consciência social, lembra que, se houvesse interesse dos altos escalões da República em solucionar, pelo menos, em 80%, os serviços de saúde pública no Brasil, era só investir galopantemente somas de reais no Sistema Único de Saúde (SUS), metodologia administrativa copiada hoje por algumas grandes nações.

Com o fortalecimento do SUS, tanto a maioria da sociedade carente incapaz de pagar plano de saúde – que sobrevive na cruz da fila do ISS – seria atendida condignamente, como aliviaria o peso de muitos hospitais públicos, além de contribuir para melhorar a remuneração dos próprios médicos, deixando-os mais livres – sem procurar biscates – para estudar, ir a congressos e dar tempo integral a profissão que abraçou e pretende encaminhar os herdeiros de seus esforços familiares.

“Ou, então”, – diz o neurologista – “adotar no SUS, o mesmo procedimento da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, cujo objetivo é retomar o imposto pago por qualquer cidadão, prestando-lhe assistência médica qualificada e gratuita, formando e capacitando profissionais de saúde, desenvolvendo pesquisas científicas e gerando tecnologia”.

Explicou mais que a Rede Sarah não recebe recursos advindos do número e da complexidade dos serviços prestados, à semelhança do que ocorre em instituições subordinadas ao SUS. Os recursos que mantêm as unidades da Rede provêm, exclusivamente, do Orçamento da União, em rubrica para manutenção de Contrato de Gestão. E recebe supervisão enérgica do Tribunal de Contas da União.

Acredito que, somente assim, diminuiria meu sofrimento em acompanhar os vexames sofridos pelos médicos cearenses, em particular aqueles que têm ampla clientela para atender em consultórios particulares.

(Gervásio de Paula)


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