Sopa de Livros

Categoria: Crônicas


19:26 · 11.12.2014 / atualizado às 19:26 · 11.12.2014 por

Clarice Lispector é o tipo de autora que tanto tem uma legião de fieis admiradores, como de pessoas que detestam seus textos. É uma das mais populares escritoras nas redes sociais, com várias comunidades que remetem à escritora, como essa e também com frases falsas atribuídas à autora, que circulam livremente pela rede. A mestra da “epifania”, conhecida por seus escritos profundos, em que suas personagens a partir de um momento do cotidiano conseguem mergulhar em suas questões, veio ao mundo e o deixou em dezembro. Nascida em 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia, faleceu um dia antes de completar 57 anos, em 1977.

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Clarice Lispector

Sua estreia na Literatura se deu cedo, aos 19 anos, quando publicou seu primeiro conto, “Triunfo”, na Revista Pan. Após casar-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, passa a morar fora do País e nascem seus dois filhos, Pedro e Paulo

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Clarice e Maury Gurgel

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Com os filhos, Pedro e Paulo

Três anos depois, em 1943, publica seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem. Escrito também aos 19 anos, o livro apresenta Joana como protagonista, que narra sua história em dois planos: a infância e o início da vida adulta. Em uma época dominada pelos romances regionalistas, Clarice surpreende a crítica com um romance existencial. Em 1946, em uma viagem ao Rio de Janeiro, lança seu segundo livro O Lustre e em 1949, lança o livro A Cidade Sitiada.

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Perto do Coração Selvagem

Editora Rocco

Preço médio: R$ 30

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O Lustre

Editora Rocco

Preço médio: R$ 36

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A  cidade sitiada

Editora Rocco

Preço médio: R$ 29

Após a separação, em 1959, volta ao Brasil e passa a assinar a coluna Correio feminino – Feira de Utilidades, no jornal carioca Correio da Manhã, sob o pseudônimo de Helen Palmer. No ano seguinte, assume a coluna Só para mulheres, do Diário da Noite, como ghost-writer da atriz Ilka Soares.

Em 2013, o programa semanal da TV Globo, Fantástico,  exibiu a microssérie “Correio Feminino”, mostrando os textos de Clarice como Helen Palmer. Veja o episódio “Receita de casamento”:

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A década de 1960 é pródiga de inspiração para a autora e nesse período, cria cinco novas obras. Em 1960, lança o livro de contos Laços de Família e no ano seguinte, A Maçã no Escuro. Já em 1964, a autora apresenta duas novas obras: A Legião Estrangeira, uma coletânea de contos, e o romance A Paixão segundo G.H., considerada uma de suas obras primas. Os dois, publicados pela Editora do Autor, liderada pelos amigos Fernando Sabino e Rubem Braga. Em 1969, apresenta Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres.

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A Paixão segundo G.H.

Editora Rocco

Edição comemorativa aos 5o anos de lançamento

Preço médio: R$ 39

Durante a década de 1970, a última de sua vida, publica quatro livros. Em 1973, Água Viva. Em 1974, A Via Crucis do Corpo e Onde Estivestes de Noite. Poucos meses antes de sua morte, lança A Hora da Estrela e postumamente, é publicado  Um sopro de vida: pulsações, obra em que Clarice trabalhava desde o início dos anos 1970.

É também nesse período que, depois de ser demitida do Jornal do Brasil (todos os judeus que trabalhavam na publicação foram demitidos nesta época), a autora começa a traduzir obras do francês e do inglês para a Editora Artenova. Entre as obras estão contos de Edgar Allan Poe, adaptação de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, dois romances de Agatha Christie e Entrevista com o Vampiro de Anne Rice.

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Entrevista com o vampiro é uma das obras traduzidas por Clarice Lispector para o português

 

A obra  A Hora da Estrela, é adaptada para o cinema por Suzana Amaral em 1985. Entre os protagonistas do longa, estão Marcélia Cartaxo, José Dumont, Fernanda Montenegro e Tamara Taxman. No romance, Clarice conta a história de Macabéa, uma datilógrafa criada em Alagoas que migra para o Rio de Janeiro e vai morar em uma pensão, tendo sua rotina narrada por um escritor fictício chamado Rodrigo S.M.

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A escrita foi sua companheira até a morte. Na manhã de seu falecimento, mesmo sob sedativos, Clarice ainda ditava frases para sua melhor amiga, Olga Borelli.

Essa foi sua última entrevista para a televisão, em 1977, ao Programa Panorama:

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Abaixo, a bibliografia  completa da autora:

Romance

  • Perto do Coração Selvagem (1944)
  • O Lustre (1946)
  • A Cidade Sitiada (1949)
  • A Maçã no Escuro (1961)
  • A Paixão Segundo G.H. (1964)
  • Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969)
  • Água Viva (1973)
  • A Hora da Estrela (1977)
  • Um Sopro de Vida (Pulsações) (1978)

Conto

  • Alguns Contos (1952)
  • Laços de Família (1960)
  • A Legião Estrangeira (1964)
  • Felicidade Clandestina (1971)
  • A Imitação da Rosa (1973)
  • A Via Crucis do Corpo (1974)
  • Onde Estivestes de Noite (1974)
  • Feliz Aniversário

Crônica

  • Visão do Esplendor (1975)
  • Para não Esquecer nunca (1978)

Entrevistas

  • De Corpo Inteiro (1975)

Literatura infantil

  • O Mistério do Coelho Pensante (1967)
  • A Mulher que Matou os Peixes (1968)
  • A Vida Íntima de Laura (1974)
  • Quase de Verdade (1978)
  • Como Nasceram as Estrelas: Doze Lendas Brasileiras (1987)
  • Obras póstumas

Coletâneas de contos, crônicas ou entrevistas organizadas e publicadas postumamente

  • A Bela e a Fera (1979) – reunião de contos inéditos escritos em épocas diferentes
  • A Descoberta do Mundo (1984) – seleção de crônicas publicadas em jornal entre agosto de 1967 e dezembro de 1973
  • Como Nasceram as Estrelas (1987) – contos infantis
  • Cartas Perto do Coração (2001) – cartas trocadas com Fernando Sabino
  • Correspondências (2002)
  • Aprendendo a Viver (2004) – seleção de crônicas publicadas em jornal entre agosto de 1967 e dezembro de 1973
  • Outros Escritos (2005) – reunião de textos de natureza diversa
  • Correio Feminino (2006) – reunião de textos publicados em suplementos femininos de jornais, nas décadas de 1950 e 1960
  • Entrevistas (2007) – seleção de entrevistas realizadas nas décadas de 1960 e 1970
  • Minhas Queridas (2007) – correspondências
  • Só para Mulheres (2008) – reunião de textos publicados em suplementos femininos pouco masculinos de jornais, nas décadas de 1950 e 1960
12:53 · 31.10.2014 / atualizado às 12:53 · 31.10.2014 por

Em 31 de outubro de 1902, nascia em Itabira, Minas Gerais, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Nono dos catorze filhos dos primos Carlos de Paula Andrade e Julieta Augusta Drummond, o escritor é reconhecidamente um dos mais importantes expoentes da Literatura nacional, em especial como cronista e poeta.

Leitor ávido desde a mais tenra infância,  Drummond teve em uma versão infantil das Aventuras de Robinson Crusoé, uma de suas primeiras paixões literárias. Foi ainda criança que ganhou dos pais a Biblioteca Internacional de Obras Célebres, um compilado de literatura e filosofia em 24 volumes. Mais tarde, na adolescência, o escritor passa a se dedicar a ler as obras de Gustave Flaubert, autor do clássico francês Madame Bovary.

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O menino Carlito Drummond com dois anos, fotografado por Braz Martins da Costa em Itabira

Mas a trajetória nas letras só teve início quando o autor foi para Belo Horizonte. Os primeiros livros foram bancados por ele, com tiragens reduzidas, de 200 ou no máximo 500 exemplares. Sempre o escritor teve uma vida dupla, entre as letras como hobby e a estabilidade financeira. Primeiro, para obter o diploma universitário, cursou farmácia, mesmo sem se identificar com área. Também foi funcionário público em vários momentos.

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Capa de Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade, edição de 1920 Acervo Instituto Moreira Salles

Na vida pessoal, também levava uma vida dupla. Foi casado com Dolores durante 62 anos e com ela teve a única filha, Maria Julieta, mas não se furtava a ter vários affairs. Um deles, perdurou de 1951 até 1987, quando faleceu, com Lygia Fernandes. Por conta dessas conquistas, brigou com Sérgio Buarque de Holanda. A então namorada do sociólogo dissera que o poeta a tinha assediado e, quando o historiador vai tirar satisfações, os dois rolam pelo chão. (deve ter sido engraçado…)

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Maria Julieta, Dolores e Carlos Drummond de Andrade

Essas e outras histórias deverão ser reveladas na biografia que a Companhia das Letras está preparando para 2017. O jornalista Humberto Werneck iniciou suas pesquisas esse ano e pretende visitar o genro de Drummond, Manuel Graña Etcheverry, que, aos 98, vive no interior da Argentina.

Com um aspecto tão comportado, também não imaginava que Drummond, além de poesias exaltando a justiça social e as vicissitudes da vida, fizesse poemas eróticos. Nesse ano, foi relançado, também pela Companhia das Letras, o livro “Amor Natural”, só com poemas desse tipo. A primeira edição foi lançada em 1992, pela Editora Record, cinco anos após a morte do autor. Aqui, um trecho dessa obra em PDF, disponibilizado pela editora.

Esta é a nova edição:

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O Amor Natural

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Editora Companhia das Letras

Preço médio: R$ 34

Carlos Drummond de Andrade escreveu livros de poesia, crônicas e também foi tradutor de obras importantes, como a francesa As Relações Perigosas,  de Choderlos de Laclos e autores como Balzac, Marcel Proust, García Lorca e Moliére. Várias de suas obras do poeta também foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e até para o chinês.

Os velhinhos da minha biblioteca:

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A Bolsa e a Vida

Carlos Drummond de Andrade

Editora Record

Preço médio: R$ 10

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Elenco de Cronistas Modernos

Vários autores

Editora José Olympio

Preço médio: R$ 30

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Seleta em Prosa e Verso

Carlos Drummond de Andrade

Editora José Olympio

Preço médio: R$ 16

Abaixo, várias de suas poesias recitadas pelo próprio Drummond.

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Mas, o poeta tem outros intérpretes ilustres, como Caetano Veloso, Drica Moraes, Adriana Calcanhoto e Marília Pera.

Sua extensa bibliografia:

Poesia

  • Alguma Poesia (1930)
  • Brejo das Almas (1934)
  • Sentimento do mundo (1940)
  • José (1942)
  • A Rosa do Povo (1945)
  • Claro Enigma (1951)
  • Fazendeiro do ar (1954)
  • Quadrilha (1954)
  • Viola de Bolso (1955)
  • A vida passada a limpo (1959)
  • Lição de Coisas (1962)
  • Boitempo (1968)
  • A falta que ama (1968)
  • Nudez (1968)
  • As Impurezas do Branco (1973)
  • Menino Antigo (Boitempo II) (1973)
  • A Visita (1977)
  • Discurso de Primavera e Algumas Sombras (1977)
  • O marginal Clorindo Gato (1978)
  • Esquecer para Lembrar (Boitempo III) (1979)
  • A Paixão Medida (1980)
  • Caso do Vestido (1983)
  • Corpo (1984)
  • Eu, etiqueta (1984)
  • Amar se aprende amando (1985)
  • Poesia Errante (1988)
  • O Amor Natural (1992)
  • Farewell (1996)
  • Os ombros suportam o mundo(1935)
  • Futebol a arte (1970)
  • Naróta do Coxordão (1971)
  • Da utilidade dos animais
  • Elegia (1938)

Antologia poética

  • Poesia até agora (1948)
  • A última pedra no meu caminho (1950)
  • 50 poemas escolhidos pelo autor (1956)
  • Antologia Poética (1962)
  • Seleta em Prosa e Verso (1971)
  • Amor, Amores (1975)
  • Carmina drummondiana (1982)
  • Boitempo I e Boitempo II (1987)
  • Minha morte (1987)

Infantis

  • O Elefante (1983)
  • História de dois amores (1985)
  • O pintinho (1988)
  • Rick e a Girafa 8

Prosa

  • Confissões de Minas (1944)
  • Contos de Aprendiz (1951)
  • Passeios na Ilha (1952)
  • Fala, amendoeira (1957)
  • A bolsa & a vida (1962)
  • A minha Vida (1964)
  • Cadeira de balanço (1966)
  • Caminhos de João Brandão (1970)
  • O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso (1972)
  • De notícias & não-notícias faz-se a crônica (1974)
  • 70 historinhas (1978)
  • Contos plausíveis (1981)
  • Boca de luar (1984)
  • O observador no escritório (1985)
  • Tempo vida poesia (1986)
  • Moça deitada na grama (1987)
  • O avesso das coisas (1988)
  • Auto-retrato e outras crônicas (1989)
  • As histórias das muralhas (1989)
13:24 · 05.10.2014 / atualizado às 13:28 · 05.10.2014 por

Helena, Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Alienista, entre outras. A obra do fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras e um dos mais brilhantes escritores brasileiros, Machado de Assis, é vasta e  inclui nove romances e peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas.

Além de serem fáceis de encontrar nos sebos, a preço bem barato, diga-se de passagem (já encontrei um memórias póstumas por R$ 2), também é possível baixar a obra completa dele através desse site.

Essas são algumas das minhas edições, compradas/presenteadas ainda nos anos 1990. (perdoem as capas…)

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A editora ática sempre publicava os clássicos nessa época. O ruim é que, com o tempo, as folhas se soltavam.

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Essa edição em magenta e vermelho(!) também elucida bem a situação do Alienista do conto de Machado. Com tamanho bolso e fino, é ótimo para colocar na bolsa.

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Dessa edição aí só li o Dom Casmurro mesmo, primeiro de todos dele.  Mofo puro.

Seus livros também foram adaptados para a televisão e o cinema. Uma das mais recentes foi a microsérie Capitu, adaptada por Luís Fernando Carvalho e exibida na Rede Globo,  em 2010. Vocês lembram das chamadas com o sucesso Elephant Gun, do Grupo Beirut, nos intervalos das programações da emissora?

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Mesmo com toda a propaganda acerca do autor, após a adoção do Enem no vestibular de muitas universidades, a leitura de Machado não é cobrada como antes. E assim, muitos jovens passam pelo Ensino Médio sem conhecer e se divertir com a linguagem de Machado, irônica e cheia de digressões, mas que representa muitos personagens do seu tempo, o século XIX. Em alguns casos, o jeito de viver de alguns personagens continua atual, como os tipos que vivem de renda e esbanjam até o dinheiro acabar. Depois de pobres, acabam procurando um casamento com mulher de posses para não voltarem às classes subalternas. História comum lida muitas vezes nas entrelinhas das colunas sociais do século XXI.

Nesse ano, causou polêmica a notícia de que uma escritora “facilitaria” o acesso aos leitores mais jovens à obra de Machado de Assis, considerada por ela de difícil compreensão, por ter um vocabulário diferente do usado nos dias de hoje. Aqui vai uma das análises sobre essa “adaptação”, publicada no Estadão.

Na semana em que se lembra a morte do escritor, ocorrida em 29 de setembro de 1908, o Museu de Arte do Rio (MAR) inaugurou a exposição O Rio de Machado, em cartaz até o dia 2 de novembro. Antes, foi feita uma campanha no Facebook, em que o próprio autor, como se falasse do outro lado da vida, citava seus caminhos pela Cidade Maravilhosa.Essa foi uma das postagens.

Um dos diferenciais dessa mostra é que foi desenvolvido um aplicativo para que o leitor pudesse localizar no Rio de Janeiro os locais citados pelo autor em seus romances e contos, assim como os locais importantes para o próprio Machado. Muitos desses lugares, passado mais de um século da sua morte, não existem mais ou estão bastante modificados, o que deixa tudo mais interessante, com clima de viagem no tempo.

Durante todo esse mês, para quem estiver no Rio, têm os passeios literários da mostra, partindo do MAR aos sábados de outubro –  11, 18 e 25 de outubro, e 1º de novembro –  vão misturar literatura, História e curiosidades sobre o escritor e sua cidade. O passeio é uma caminhada com duração de cerca de 3h e paradas nos pontos sinalizados. Os guias estão preparados para tirar dúvidas e auxiliar em qualquer outra necessidade durante o trajeto.

Outra dica para quem quiser conhecer o Rio, através do escritor carioca, é “Contos Fluminenses”, da L&PM Pocket. Ao todo, são sete contos, publicados em 1870, portanto anteriores a todos os romances do autor. Os contos são deliciosos de se ler. O primeiro, Miss Dollar, chega a ser hilário em sua primeira página. Confira aqui o conto e o livro na íntegra.

Essa é a minha edição, também de bolso:

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Editora: L&PM Pocket

Preço médio: R$ 15,90

15:28 · 31.07.2014 / atualizado às 15:28 · 31.07.2014 por

Um grande admirador de Jorge Amado. Baiano como ele, mas da Ilha de Itaparica. Na infância, o rigor do pai o forçou a traduzir textos inteiros em latim. Mais tarde, ele mesmo faria questão de fazer a tradução de seus livros para o inglês.  Seu primeiro emprego foi de repórter, no Jornal da Bahia, mas, depois de um período nos Estados Unidos, lecionou Ciências Políticas na Universidade Federal da Bahia. Essas são algumas das informações biográficas de João Ubaldo Ribeiro, o segundo imortal da Academia Brasileira de Letras a partir nesse mês de julho, tão fúnebre para a Literatura.
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 João Ubaldo Ribeiro era uma pessoa simples e costumava encontrar os amigos no bar Tio Sam, no Leblon, frequentado há mais de 20 anos pelo escritor, sempre aos sábados, domingos e feriados

Sua linguagem, marcada pelo humor e pelo erotismo, foi transplantada para várias mídias. A adaptação do romance O Sorriso do Lagarto, por exemplo, se deu como minissérie da TV Globo, nos início dos anos 1990.

Esse romance trata da investigação de um crime, na ilha de Santa Cruz. Paralelamente, se desenrolam outras histórias, como a do amor proibido de Tony Ramos e Maitê Proença e os experimentos macabros de um médico que pretende criar uma raça híbrida de homens e lagartos.

Veja um pouco das cenas do casal, que é pego no “flagra”, pelo marido da personagem, durante a trama:

 

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O cinema também recebeu sua contribuição, com Sargento Getúlio, em 1983, filme de Hermano Penna, com ninguém menos que Lima Duarte como protagonista. O filme bebe um pouco na linguagem “glauberiana”, com ritmo descontinuado e ganhou vários prêmios no ano de seu  lançamento, como o Jabuti de Literatura e vários Kikitos no Festival de Cinema de Gramado. O enredo traz como personagem principal um policial detestável, mas refém do sistema a que serve.

 

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Entretanto,  Viva o Povo Brasileiro é apontada pelos críticos de literatura como a sua obra mais importante. Apesar de contar alguns fatos reais da história brasileira, como a vinda da família real, em 1808 e a Ditadura de 1964, é uma narrativa com personagens fictícios. O livro, que tem um tom crítico e bem humorado, foi lançado em 1984 e retrata cerca de 400 anos de história do país (1647-1977). Boa parte do texto acontece na terra de João Ubaldo, a Ilha de Itaparica, apesar de, no decorrer da trama, outros cenários como Rio de Janeiro, São Paulo e Lisboa, serem visitados. 

De 2009 até 2014, a obra já vendeu 35 mil exemplares. Mas, desde que foi lançada, estima-se que tenha vendido mais de 200 mil cópias. Foi traduzida para o inglês pelo próprio autor, mas ganhou versões em vários outros idiomas. Inclusive, João Ubaldo Ribeiro foi um dos escritores brasileiros mais divulgados no exterior. Sua obra está presente em 15 países.


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Viva o Povo Brasileiro

Editora Alfaguara

640 páginas

Preço médio: R$ 77,00

Outro livro de João Ubaldo bastante comentado é A Casa dos Budas Ditosos, lançado pela Editora Objetiva, em 1999. A obra fazia parte da Coleção Plenos Pecados e era o volume relacionado com a Luxúria. Esse foi o quarto livro da série, que teve antes histórias relacionadas com a Gula (Luis Fernando Verissimo), Ira (por José Roberto Torero) e Inveja (por Zuenir Ventura).

O livro traz a história de CLB, uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro, sem nenhuma culpa em praticar as infinitas possibilidades do sexo. Só que fica no ar a dúvida se as memórias da devassa senhora são verdade ou não. Isso porque João Ubaldo disse que apenas colocou no papel os depoimentos contidos em um pacote de fitas cassete – é o novo! – deixados em sua porta.

A Casa dos Budas Ditosos foi interpretada no teatro com um monólogo de Fernanda Torres. A propósito, a atriz estreou esse ano como escritora, com o livro Fim, que é um sucesso de vendas, mas deixemos isso para um post mais adiante.

Aqui, Fernanda Torres conta um pouco da peça:

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Uma frase para abrir o “apetite” de quem quiser ler o livro dos Budas Ditosos depois:

“Faço tudo que me dá na cabeça, não quero saber de limitações. Eu não pequei contra a luxúria. Quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer”.

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A Casa dos Budas Ditosos

Editora Objetiva

164 páginas

Preço médio: R$ 36,00

Para quem quiser saber mais da obra extensa desse autor, que  abrange romance, crônica, conto e ensaio, segue a listinha completa de seus livros:

Romances

  • Setembro não tem sentido – 1968
  • Sargento Getúlio – 1971
  • Vila Real – 1979
  • Viva o povo brasileiro – 1984
  • O sorriso do lagarto – 1989
  • O feitiço da Ilha do Pavão – 1997
  • A Casa dos Budas Ditosos – 1999
  • Miséria e grandeza do amor de Benedita (primeiro livro virtual lançado no Brasil) – 2000
  • Diário do Farol – 2002
  • O Albatroz Azul13 – 2009

Contos

  • Vencecavalo e o outro povo – 1974
  • Livro de histórias – 1981. Reeditado em 1991, incluindo os contos “Patrocinando a arte” e “O estouro da boiada”, sob o título de Já podeis da pátria filhos

Crônicas

  • Sempre aos domingos – 1988
  • Um brasileiro em Berlim – 1995
  • Arte e ciência de roubar galinhas – 1999
  • O Conselheiro Come – 2000
  • A gente se acostuma a tudo – 2006
  • O Rei da Noite – 2008

Ensaios

  • Política: quem manda, por que manda, como manda – 1981

Literatura infanto-juvenil

  • Vida e paixão de Pandonar, o cruel – 1983
  • A vingança de Charles Tiburone – 1990
  • Dez bons conselhos de meu pai – 2011

 

17:53 · 18.07.2014 / atualizado às 18:06 · 18.07.2014 por

Nelson Rodrigues é um autor que inspira sentimentos contraditórios. Pelo seu jeito único de tratar de assuntos como família, relacionamentos e tragédias, geralmente é amado ou odiado pelos leitores. Na década de 1990, algumas de suas obras foram adaptadas para a televisão.

 

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Nelson trabalhando ao lado do inseparável cigarro.

Entre as que tiveram mais audiência, estão os episódios da A vida como ela é…, exibidos no Fantástico e a minissérie Engraçadinha – seus amores e seus pecados, que lançou a atriz Alessandra Negrini como protagonista de novelas.

Alguém lembra?

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Mas o autor fez história mesmo no teatro. Nos palcos, os enredos trágicos e que desnudavam a hipocrisia da sociedade tiveram numerosas adaptações e montagens. Entretanto, o que muitos não sabem é que Nélson era repórter policial e, muitas vezes, conseguia inspiração para os seus enredos na crua realidade. E que as peças, livros e contos eram feitos nas poucas horas livres do autor, que trabalhava muito.

Das obras de Nelson, conheço O casamento,  bem pesado para os padrões da época em que foi lançado. Na minha edição, garimpada em um sebo, datada de 1966, a primeira página tem um lembrete para o leitor desavisado, em letras grandes: LEITURA PARA ADULTOS. Assim como grande maioria de suas peças, o livro provocou enorme polêmica e, em poucas semanas, teve seus exemplares recolhidos pela censura. Quem ler, vai saber os motivos…

Essa é a minha edição:

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Essa é a mais recente

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Editora Agir
2009
R$ 46,00

Depois, li Asfalto Selvagem, que traz a história original de Engraçadinha, em dois volumes. Assim como as outras histórias do autor, tem crimes passionais, sangue e relações familiares que não são exatamente o que parecem. No início do livro, Engraçadinha é uma adolescente voluptuosa e muito bonita, apaixonada pelo primo Sílvio, que está casamento marcado com Letícia, também prima. Mesmo noiva de Zózimo, um cara sem expressividade nenhuma, digamos assim, ela arma para desfazer os dois casamentos, seduzindo Sílvio e simulando uma gravidez. Mas o fim dessa armação é bem trágico, pra variar e a protagonista tem uma reviravolta em seus planos a partir disso.

 

Minha edição “vintage”:

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E a mais atual

Índice

Editora Agir
2006
R$ 70,00

Mas a obra que vou falar aqui é bem diferente dessas. Trata-se do livro de crônicas A cabra vadia (novas confissões). Nessa obra, Nélson é irônico e, como bom reacionário que sempre foi, chega a ser até engraçado, ao defender suas posições. O livro tem o título de cabra vadia porque, sempre que o autor pretendia entrevistar alguma figura da esquerda, de forma imaginária, para ele a única forma de fazer com que expusessem suas verdadeiras faces, ele convidava o entrevistado, de forma imaginária também , é claro,  para um terreno baldio, à meia-noite. A única plateia era a tal da cabra vadia. Entre os seus entrevistados imaginários, estão Dom Hélder Câmara e Cacilda Becker. Nelson Rodrigues inclusive, apresentava no programa “Noite de Gala”, da TV Globo essas “entrevistas”, com depoimentos que eles só diriam “num terreno baldio, às luz de archotes, e na presença apenas de uma cabra vadia”. E por que o animal? “A cabra não trai”, justificava. Outra situação hilária muitas vezes descrita no livro, é a conversa com a grã-fina que, mesmo casada, é “amante espiritual do Guevara”.

O livro foi lançado em 1968, quando o Brasil e o mundo fervilhavam, marcados pela radicalização de posições políticas à esquerda e à direita. Enquanto artistas e intelectuais acreditavam ser necessário se posicionar claramente, Nelson Rodrigues iniciava um momento muito difícil de sua vida – ele se aproximava dos 60 anos, logo terminaria o segundo casamento, sofreria com duas úlceras perfuradas e um enfarte, além de se angustiar com o filho Nelsinho, obrigado a entrar na clandestinidade e ainda ser preso. Outra questão que o perturbava era a nova forma de se fazer jornalismo, que pregava textos isentos. Todas as crônicas que estão no livro, originalmente, foram publicadas em vários jornais, como  o “Correio da Manhã” e o “Globo”.

A minha edição não tem a data de publicação, mas pelo amarelo das páginas, deve ser da  época do primeiro lançamento, porém já existem duas outras edições mais recentes, a da editora Agir e da Companhia das Letras, que contam inclusive com prefácios que explicam um pouco mais sobre o autor e a época em que a obra foi escrita.

13-16847-0-5-a-cabra-vadia

A Cabra Vadia – novas confissões
Editora Agir
2007
R$ 63,90

 

Aqui, também tem um vídeo  da época do centenário do autor, em 2012, em que Ruy Castro, autor da biografia (que, infelizmente, ainda não li) – O anjo pornográfico, fala um pouco sobre Nelson.

YouTube Preview Image

Quer saber mais de Nelson Rodrigues? Abaixo, temos uma listinha do que ele escreveu. Sirva-se.

Peças Teatrais

A mulher sem pecado
Vestido de noiva
Valsa nº 6
Viúva, porém honesta
Anti-Nélson Rodrigues
Album de família
Anjo negro
Senhora dos Afogados
Doroteia
A falecida
Perdoa-me por me traíres
Os Sete Gatinhos
Boca de ouro
O beijo no asfalto
Bonitinha, mas ordinária ou Otto Lara Rezende
Toda Nudez Será Castigada
A serpente

Romances

Meu destino é pecar
Escravas do amor
Minha vida
Núpcias de fogo
A mulher que amou demais
O homem proibido
A mentira
Asfalto Selvagem: Engraçadinha, Seus Pecados e Seus Amores
O casamento

 

Contos

Cem contos escolhidos – A vida como ela é…
Elas gostam de apanhar
A vida como ela é — O homem fiel e outros contos
A dama do lotação e outros contos e crônicas
A coroa de orquídeas

Crônicas

Memórias de Nélson Rodrigues
O óbvio ululante: primeiras confissões
A cabra vadia
O reacionário: memórias e confissões
Fla-Flu…e as multidões despertaram
O remador de Ben-Hur
A cabra vadia – Novas confissões
A pátria sem chuteiras
A menina sem estrela
À sombra das chuteiras imortais
A mulher do próximo
Nélson Rodrigues, o Profeta Tricolor
O Berro impresso nas Manchetes
O quadrúpede de vinte e oito patas

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Blog da jornalista Kelly Garcia, da área Entretenimento, do Diário do Nordeste.
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