Ferdinando Teixeira: com rapadura, farinha e banana

29/09/2011 - 15:11 por

Estádio Rei Pelé, Maceió, 16 de julho de 2011. O Fortaleza Esporte Clube estreava na Série C do Campeonato Brasileiro, perdendo por 1 a 0 para o CRB (AL). O resultado deu início à péssima campanha do clube na competição. E, para surpresa de todos, ao fim daquela partida, o então treinador Ferdinando Teixeira anunciava sua aposentadoria, consumada na partida seguinte, contra o América (RN). O adeus foi em clima triste, com uma nova derrota por 3 a 1, em pleno estádio Presidente Vargas.

Dois meses se passaram desde o anúncio de Ferdinando. O Fortaleza conseguiu escapar do rebaixamento no campo e na Justiça. E o ex-técnico vive sua vida tranquilo, como ele conta, em entrevista ao Diário do Nordeste Online. “Como diz o matuto: rapadura, farinha e banana já dá para viver”.

Ferdinando abriu o coração e contou como foi a preparação para a aposentadoria. Relembrou seus melhores e piores momentos no futebol. Ele também comentou como foi lidar com o baixinho Clodoaldo na época de ouro do Fortaleza. Além disso, fez denúncias sérias sobre a conduta de alguns jogadores ‘de nome’.

Aposentadoria

“Eu estava tranquilo. Já vinha preparando minha aposentadoria há cinco anos. A ideia era aposentar no final do campeonato (Série C), mas, como houve problemas internos no Fortaleza, tive de acelerar a decisão. Como eu já vinha me preparando, isso me ajudou muito”. Esta é a explicação de Ferdinando para sua aposentadoria.

Tranquilo, ele fala sem problemas, mas não entra em detalhes sobre o que realmente aconteceu nos bastidores do Leão. “Já passou o problema, não adianta mais falar sobre isso”, pontua.

Ferdinando hoje está dedicado aos seus próprios negócios, administrados em Natal. Como diz, está “correndo atrás de outras atividades”, reorganizando sua vida. Afinal, para quem já está envolvido no futebol há 32 anos, não é assim tão simples, de uma hora para a outra, parar tudo e esquecer a profissão.

Alecrim

Foi no Alecrim (RN) onde tudo começou. E o eterno “Professor” – seu apelido no Fortaleza – relembra com carinho dos tempos de arquibancada. “Eu comecei no futebol através do Alecrim. Comecei a torcer por ser um time bom. Na época em que comecei a ver futebol, ele foi bicampeão. Era um bom time e, automaticamente, eu era jovem e comecei a torcer”.

O então torcedor alimentava o amor pelo clube e quando resolveu iniciar na profissão de treinador, não tinha outro endereço que não fosse o do Alecrim para nascer para o futebol. “Quando comecei como treinador, comecei no Alecrim. Foi quem me abriu as portas. Eu prometi que um dia passaria um campeonato inteiro de graça no Alecrim. E cumpri”. Agora, o professor voltou para as arquibancadas. “Hoje sou só torcedor”, explica.

Momentos

Relembrar bons e maus momentos fez Ferdinando refletir. Isto ficou visível na voz firme do potiguar de 65 anos, com tantas histórias para contar. “Tive muitas alegrias, ganhei muitos campeonatos. Estaduais, ascenções da Série C para a Série B, da Série B para a Série A…”, lembra.

Sem falsa modéstia, Ferdinando dá o tom do que vem a seguir. “No mundo do futebol você tem de dizer que ganhou mais do que perdeu”. Mas o professor não precisa entrar nessa para provar seu valor, não é?

Dentre os melhores momentos de sua carreira destaque para Alecrim e ABC, ambos do Rio Grande do Norte. “Lembro do meu primeiro campeonato profissional pelo ABC. Também tinha o sonho de ser campeão pelo Alecrim e fui bicampeão”, frisa.

Fortaleza

No Fortaleza, onde chegou em 2000, mais momentos marcantes na vida do professor Ferdinando. Afinal, tirar o time da fila e levá-lo à elite do futebol nacional não é um feito qualquer. “Meu momento mais feliz no Fortaleza foi quando ganhamos o Campeonato Cearense em 2000. Assumi quando ninguém queria ir, estava numa crise”.

Apesar disso, ainda resta uma certa mágoa, visível, porém negada pelo ex-treinador. “A última vez que assumi o Fortaleza estava com salário baixo. Não fui ganhar dinheiro, fui para ajudar. E aconteceu o que aconteceu”, explica.

Ainda assim ele demonstra gratidão pelo que passou e não deixa de alfinetar a direção tricolor: “Agradeço a todos: imprensa, torcida, pois sou torcedor do Fortaleza mesmo e não é isso que vai me deixar parar de torcer pelo Fortaleza. Espero que o clube se recupere rapidamente e amadureça logo, pois uma derrota não pode ser motivo de desespero”.

E a despedida do Leão? Sem papas na língua, Ferdinando manda seu recado. “Foi meu momento mais triste. Acho que houve falta de maturidade da direção, falta de profissionalismo, e houve minha saída. Mas passou. Espero que o Fortaleza cresça. É um time grande, tenho uma empatia muito grande e espero que se recupere rapidamente pois merece estar num lugar bem melhor”.

E, em meio a tanta alfinetada, Teixeira dispara inclusive contra outras equipes que defendeu. Sempre sem citar nomes, o mestre critica a forma como alguns dirigentes lidam com as situações do dia-a-dia das equipes e até alguns atletas que, segundo ele, não trabalhavam de maneira correta. “Enjoei de algumas direções. Se eu enjoava eu ia embora, pois sabia que não daria certo. Alguns grupos de jogadores que mostravam que não queriam muita coisa, que achava que não queriam nada. Eu tentava fazer algo para mudar, mas se não mudava, eu pulava fora. Mas também peguei boas diretorias, que sabiam separar dirigente de torcedor”, explica.

E aproveita para mandar uma lição aos dirigentes, adquirida com a experiência de 32 anos de futebol. “O dirigente ao assumir tem de esquecer que é torcedor, tem que ser frio, calculista”, sugere.

Clodoaldo

O professor tem um carinho todo especial por um certo baixinho de Ipu. Clodoaldo encantou os olhos e cativou o respeito do sisudo treinador.

“Clodoaldo é um menino bom, sem maldade. Porém, foi mal orientado e tem problemas sérios. Precisava de acompanhamento e ele nunca quis isso. O clube (Fortaleza) deu, na época, toda a assistência. Eu, o presidente, comissão técnica. Mas era um craque, na acepção da palavra. Era para ser um homem rico, pela qualidade do futebol que jogava. Acompanho e torço por ele, onde ele estiver. É um grande jogador. Fazia aquelas coisas naturalmente, fazendo mal somente a ele. É um cara espetacular”, ressalta.

O professor cita qual o principal erro de Clodô em sua carreira. “Se o cara tem uma doença tem que se tratar. Ele precisava ter assumido o alcoolismo. Precisava ter um acompanhamento psicológico para crescer como atleta”. Ferdinando lembra com certa indignação dos falsos amigos que circulavam Clodoaldo. “Tinha gente que se fazia amigo dele, saía com ele para que ele pagasse as contas. Ele era um cara puro, que era amigo de todo mundo, que era diferente. Clodoaldo nunca me respondeu”, lembra, com orgulho do pupilo.

De acordo com o ex-treinador do Leão, o problema de Clodoaldo pode ser visto já nas categorias de base, limitando assim a carreira de muitos aspirantes a craques. “Os clubes que têm hoje essa molecada têm que acompanhar com psicólogo, assistente social, pois eles (os garotos) não têm cabeça. Isso é má companhia, porque quando está começando. Se der bom conselho ele escuta. E se der um mal conselho ele segue”.

Denúncia

Neste momento, o professor demonstra irritação ao falar de um assunto delicado. Teixeira acusa jogadores mais velhos de desviarem os jogadores mais novos. “O que tenho mais raiva é do jogador ‘coroa’, que sai, vai pra balada. Ele nunca leva outro ‘coroa’ com ele, só leva um garoto. Tive muitos problemas com jogadores de nome que eram de baladas e que levavam jogadores novos com eles. E eu ‘pegava’ pesado. Por que ele não levava um ‘coroa’? Levava um garoto? Aí o garoto vai para noite, vê mulher bonita e pensa que aquilo é a vida, e dali a pouco está um homem de balada também”, lamenta.

Teixeira, porém, crê em uma mudança de comportamento, aos poucos, graças aos exemplos de frustrações que se vê por aí. “Tem muita má influência, mas agora tá diminuindo. Jogador de experiência pensa no futuro, sabe que tem carreira curta”.

Aproveita para lembrar do último clube que dirigiu, o Fortaleza que capengou na Série C, e elogiar a postura dos jogadores. “Eu vi e testemunhei nesse último grupo jogador dando conselho a garoto, que a carreira é curta, o dinheiro que tiver tem que aplicar porque lá na frente não sabe como vai ser. Tem uns que vão pra balada, e tem outros que se cuidam”, conclui.

Bate-bola:

Time de Fora: Por que sempre optou por trabalhar no Nordeste, professor?
Ferdinando Teixeira: “Para voltar para o exterior e para trabalhar no Sul/Sudeste. Recebi muita proposta. Mas foi opção minha. Não queria ficar longe dos meus comércios. Talvez tenha sido um erro meu. Tinha condições de crescer lá fora também.”

Time de Fora: O que lhe irrita?
FT: Amador querendo dar pitaco no mundo profissional.

Time de Fora: Já passou por algum constrangimento no futebol?
FT: Nunca entrei em negociata, nunca entraria. Então, nunca tive motivo para me sentir constrangido de nada.

Time de Fora: O Fortaleza é…?
FT: É um clube como o Alecrim. Só que o Alecrim não tem torcida. O Fortaleza tem torcida grande, barulhenta e principalmente, participante.

Time de Fora: Pensa em voltar a trabalhar com futebol?
FT: Hoje, não estou trabalhando porque não quis. Quando saí do Fortaleza, não era pra vir pra Natal. Recebi proposta de dois clubes de fora (exterior) e outros da região norte. Veio presidente, diretor falar comigo, dizendo “Não acredito nessa história, o senhor não vai parar, o senhor vem para cá ajudar a gente…’ Na minha cabeça, hoje, eu parei. Estou ocupando a cabeça para matar a vontade de voltar.

Ficha técnica

Ferdinando José Araújo Teixeira nasceu em Pedro Velho, Rio GRande do Norte em 21 de março de 1946. Treinou, no Brasil, as equipes de ABC/RN, Alecrim, América/RN, Fortaleza, Santa Cruz, Botafogo/PB, Ceará, Bahia, CSA e Campinense. No Catar, Ferdinando treinou o Al Arabi entre os anos de 1997 e 1998.

Categoria: Arquivo

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