Contos do banco de trás
Gustavo de Negreiros • Publicado às: 14:33 • 22/08/2008
Que tal uma voltinha de táxi? O Zona Cyber convida você a dar um passeio pelos curiosos caminhos do taxista Mauro Castro, que assina o blog “Taxitramas”. Nada de sigilo entre motorista e passageiro. A quatro portas, tudo pode ‘rolar’. E tem cada história…

“Se conseguisse me trancar em um quarto e criar todos esses contos seria um gênio” (Mauro Castro, taxista)
Um sinal, uma parada e a viagem começa. Destino? O universo de histórias surpreendentes contadas pelo gaúcho Mauro Castro. Para quem vagueia na rede em busca de um rumo, eis uma boa chance de se encontrar nas crônicas desse homem, que resolveu associar ao ofício de dirigir a arte de ouvir e pensar o mundo que gira ao seu lado, ou mesmo no banco de trás.
Primeira marcha, partida. O passageiro (internauta) talvez estranhe, à primeira vista, o espaço interno do veículo. Taxitramas.com.br não se importa com o luxo de hyperlinks, animações e outros itens de série. Afinal, o percurso que leva às histórias bem-humoradas, interessantes e sintonizadas com o dia-a-dia é sempre o mesmo. Como combustível, depoimentos voluntários de pessoas comuns de Porto Alegre, que não escapam aos ouvidos desse motorista das letras.
Início de tudo
Mauro Castro volta ao início da estrada para justificar o interesse pelo mundo virtual. O taxista vai dos primeiros passos na adolescência, através de fanzines, até o contato com o jornal impresso e a internet. “Na verdade, tudo começou há cinco anos no impresso”, lembra Mauro. As narrativas do motorista sobre o dia-a-dia ao volante chamaram atenção do jornalista Cyro Martins, que lhe ofereceu uma coluna semanal em um jornal local e, pouco tempo depois, o blog ‘Taxitramas’.
Sinal verde para Mauro, uma avenida de oportunidades. Os relatos dos momentos humorísticos, como a história de uma mulher que ofereceu calcinhas e peças de lingerie; e até de mistério, como o caso do morto que ligou pedindo um táxi, são um sucesso absoluto na web. Atualmente, o ‘Taxitramas’ é citado e comentado nos mais famosos portais brasileiros.
O trânsito livre de idéias na mente do motorista ultrapassou as publicações semanais no blog e invadiram as estantes do País . Em 2006, foi lançado o livro “Táxitramas”. Um sucesso editorial. Tanto que o taxista-blogueiro já está com uma segunda edição engatilhada, prestes a ser lançada na Feira do Livro de Porto Alegre .
Conhecido, Mauro já ganhou novos passageiros do Brasil e até de outros países. “Você acaba sendo mais conhecido pelas pessoas no dia-a-dia, principalmente pelos colegas. Eles acabam te vendo como um cara divertido. Isso acabou aumentando o meu ciclo de amizades”.
Produção do blog
Congestionamentos e sinais vermelhos são problemas que não fazem parte da vida cotidiana de Mauro Castro. Quanto mais tempo dentro do táxi, melhor. É no próprio carro que ele recebe os passageiros, tem inspiração e escreve os textos. “Durante o dia-a-dia, as coisas vão acontecendo e eu vou anotando. Pego panfletos e começo a rascunhar. Quando chego em casa, copio tudo para o editor de textos. Escrevo literalmente ao volante, apoiado nele”.
Para o motorista, não existe essa de gabinete ou escritório. “O táxi é a minha biblioteca. Só que em vez de eu estar rodeado por livros, estou rodeado de pessoas, que me baseiam e me norteiam”, completa o motorista-blogueiro.
No meio do caminho, Mauro fala pouco, se mantém neutro. O táxi, um meio de transporte, muitas vezes se transforma numa sala de análise, e o banco de passageiros em um divã. Pessoas com diversas realidades desabafam para o motorista. “As pessoas acham que não vão te ver mais. Acho que isso acaba criando um ambiente propício para esse tipo de acontecimento”. Fatos corriqueiros, aparentemente normais para qualquer cidadão, são postos em uma linguagem literária, que embora carregada de alguns elementos de ficção, não perde atualidade e relevância social.
Humilde, Mauro não coloca as letras à frente da direção. “Se alguém me perguntar o que eu sou, vou dizer que sou taxista”, enfatiza. O motorista ainda revela que, se não fosse a colaboração dos passageiros, seria difícil manter a publicação na internet. “Se conseguisse me trancar em um quarto e criar todos esses contos seria um gênio”, brinca.
A viagem é prazerosa, a conversa é boa, mas o destino final se aproxima. No taxímetro, nenhum centavo a ser cobrado. Não que tudo tenha sido gratuito, mas talvez um bate-papo tenha se transformado em mote para mais uma história interessante na mente de Mauro. E há quem acredite que isso vale mais que dinheiro.



